Introdução: uso de canábis e saúde cardiovascular
Num estudo da Universidade da Califórnia em São Francisco, os investigadores não encontraram provas de que o uso de canábis estivesse associado a um risco mais elevado de fibrilhação auricular (FA), um tipo comum de ritmo cardíaco irregular. Este estudo observacional, publicado na revista Heart Rhythm, vem juntar-se à investigação sobre a relação entre o uso de canábis e a saúde cardiovascular.
Pormenores do estudo: análise da canábis e do risco de FA
O estudo utilizou dados de 150 554 participantes do UK Biobank com uma idade média de 63 anos, incluindo pessoas que nunca tinham usado canábis, utilizadores ocasionais (menos de 100 vezes) e utilizadores frequentes (mais de 100 vezes). Ao longo de um seguimento médio de cerca de seis anos, os investigadores identificaram novos diagnósticos de FA a partir dos registos médicos e, após ajustamento para fatores como a idade, o álcool, o tabagismo e doenças cardíacas preexistentes, não encontraram nenhuma diferença estatisticamente significativa no risco de FA entre os utilizadores de canábis e as pessoas que nunca a tinham usado.
Principais resultados: pôr em causa pressupostos anteriores
Ao contrário da maioria dos estudos anteriores, que eram transversais e recorriam frequentemente a códigos de diagnóstico para identificar utilizadores de canábis, esta investigação acompanhou utilizadores recreativos de canábis ao longo do tempo. Os investigadores concluíram que não havia provas de que o uso de canábis estivesse associado a um risco mais elevado de FA, quer em utilizadores ocasionais, quer em utilizadores frequentes. Salientaram que não puderam avaliar a forma como a canábis era usada nem as quantidades usadas.
Implicações mais amplas: uso de canábis e eventos cardiovasculares
A FA é conhecida por aumentar o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e de outros eventos cardiovasculares adversos. Este estudo vem juntar-se à investigação sobre a canábis e o coração, mas o facto de não se ter encontrado associação com a FA numa coorte não demonstra que o uso de canábis esteja isento de risco cardiovascular. Um estudo transversal separado, realizado com adultos dos EUA, não encontrou associação entre o uso atual de canábis e os fatores de risco tradicionais da aterosclerose (endurecimento das artérias) ou o risco cardiovascular estimado a longo prazo, embora não tenha medido diretamente enfartes nem AVC.
Compreender o panorama completo da canábis e da saúde cardíaca
Embora este estudo se centre na FA, faz parte de uma discussão mais ampla sobre a canábis e a saúde cardíaca. Uma meta-análise de 2023 com 20 estudos observacionais concluiu que o uso de canábis não estava significativamente associado a enfartes, AVC ou eventos cardiovasculares adversos em geral, mas os seus autores aconselharam prudência porque os estudos diferiam consideravelmente. No entanto, o uso problemático de canábis pode ainda assim acarretar riscos cardiovasculares: um estudo publicado na revista Addiction concluiu que os adultos de Alberta, no Canadá, com perturbação do uso de canábis tinham um risco de eventos cardiovasculares adversos cerca de 60% superior ao de adultos emparelhados sem a perturbação.
O estudo da Universidade da Califórnia é um contributo útil para a nossa compreensão da canábis e da saúde cardiovascular. Não encontrou provas de que o uso de canábis estivesse associado a um risco mais elevado de fibrilhação auricular nesta coorte, mas, enquanto estudo observacional, não pode excluir a existência de risco nem demonstrar uma relação de causa e efeito, e não conseguiu avaliar o método nem a quantidade de uso. Contribui para discussões mais matizadas sobre o uso de canábis e a saúde. Saiba mais no nosso artigo sobre o consumo de canábis nos EUA e no Canadá.