O 2-AG e a anandamida são dois dos endocanabinoides mais estudados: compostos de ocorrência natural produzidos pelo corpo humano que atuam nos mesmos recetores que muitos canabinoides vegetais.
Estes compostos têm sido investigados quanto ao seu potencial envolvimento no apoio às funções reguladoras do próprio organismo.
Analisar os papéis distintos do 2-AG e da anandamida oferece perspetivas valiosas sobre o funcionamento dos sistemas internos do organismo e evidencia a complexidade destas interações.
Com base na investigação científica e na experiência prática, podemos compreender melhor a forma como estes compostos interagem com as funções naturais do organismo.
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Pontos principais
- O primeiro recetor canabinoide (CB1) foi identificado em 1988 e, em 1992, uma equipa que incluía William Devane, Lumír Hanuš e Raphael Mechoulam identificou a anandamida, o primeiro endocanabinoide conhecido.
- Os recetores CB1 localizam-se sobretudo no cérebro, na medula espinal e no sistema nervoso central, enquanto os recetores CB2 se encontram principalmente nos tecidos imunitários.
- O 2-AG e a anandamida são lípidos endógenos que interagem com os recetores canabinoides do organismo.
- A descoberta dos canabinoides endógenos ajudou a explicar a função natural dos recetores canabinoides no ser humano.
- Tanto o 2-AG como a anandamida são sintetizados consoante as necessidades, em vez de ficarem armazenados no organismo.
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O papel dos endocanabinoides no ECS
O estudo da planta de canábis contribuiu para identificar e dar nome ao sistema endocanabinoide (ECS). Os compostos presentes na planta têm semelhanças notáveis com os endocanabinoides do organismo. A investigação continua a estudar de que forma o ECS pode estar associado a vários processos naturais.

Papel do 2-araquidonoilglicerol (2-AG)
Uma molécula importante é o 2-araquidonoilglicerol, habitualmente designado por 2-AG. Uma revisão publicada na revista Molecules descreve-o como o endocanabinoide mais abundante e como agonista total dos recetores CB1 e CB2, contribuindo para a sinalização retrógrada entre células nervosas.
Um estudo publicado na revista Obesity Research & Clinical Practice analisou as associações entre o 2-AG e a anandamida em circulação e substâncias reguladoras do apetite, como a leptina, em mulheres com obesidade. O 2-AG foi também detetado no leite materno humano, e estudos em animais têm analisado o seu possível papel na sucção e no desenvolvimento inicial.
Endocanabinoides e investigação sobre o envelhecimento cognitivo
A relação entre os endocanabinoides e o envelhecimento continua a ser uma área de estudo fascinante. Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, sobretudo no que diz respeito a condições que afetam a função cognitiva, os investigadores continuam a estudar de que forma o ECS pode influenciar os processos normais de envelhecimento.

A natureza complexa do sistema indica que os endocanabinoides poderão desempenhar um papel na influência sobre as redes neuronais com o passar do tempo, embora sejam necessários estudos adicionais para aprofundar o conhecimento nesta área.
Comunicação entre endocanabinoides e células gliais
Outro aspeto que se destaca é a forma como os endocanabinoides interagem com as células gliais. Ao contrário de muitos neurónios, os astrócitos (um tipo de célula glial) no cérebro de ratinhos adultos expressam recetores CB1 apenas em níveis baixos, o que torna a sua comunicação com o sistema endocanabinoide mais complexa.
Um estudo em ratinhos de Bilkei-Gorzo et al. (2018) verificou que a eliminação dos recetores CB1 dos neurónios GABAérgicos era acompanhada de alterações associadas à idade na forma e na atividade inflamatória dos astrócitos, o que sugere que os neurónios podem atuar como intermediários que influenciam as respostas das células gliais através da sinalização CB1. Estes resultados oferecem informações valiosas sobre a forma como o ECS poderá estar envolvido na manutenção de um ambiente interno equilibrado no sistema nervoso.
| Estudo | Principais resultados | Detalhes | Conclusão |
|---|---|---|---|
| Bilkei-Gorzo et al. (2018) | Os neurónios influenciam as respostas das células gliais através dos recetores CB1. |
|
Em ratinhos, a perturbação da sinalização dos recetores CB1 nos neurónios GABAérgicos foi acompanhada de alterações funcionais nos astrócitos relevantes para o envelhecimento cerebral. |
Células gliais e o endocanabinoide 2-AG
Em ratinhos, as células gliais parecem detetar perturbações, como infeções bacterianas, e podem alterar o seu funcionamento em resposta.
Durante estas alterações, o organismo aumenta a sua produção de endocanabinoides. Os neurónios respondem ativando recetores CB1 próximos e transmitindo sinais a outras células nervosas, ao mesmo tempo que influenciam as respostas imunitárias. Utilizam também proteínas para enviar às células gliais informações sobre o seu estado, o que ajuda a regular a atividade inflamatória.
Um dos principais endocanabinoides produzidos e libertados pelos neurónios durante este processo é o 2-araquidonoilglicerol (2-AG).
O que acontece quando o cérebro abranda a produção de endocanabinoides?
Ainda não é claro se os níveis de endocanabinoides diminuem naturalmente com o envelhecimento, mas, em estudos com animais, a redução da sinalização dos recetores CB1 tem sido associada a alterações da função cerebral. Em ratinhos sem recetores CB1, o declínio cognitivo precoce e a perda de células nervosas foram acompanhados de alterações neuroinflamatórias, o que sugere que uma menor estimulação dos recetores CB1 pode afetar a atividade das células gliais e a comunicação entre neurónios.
Na doença de Alzheimer, as fases avançadas estão associadas à perda de populações de células nervosas.

A investigação de Bilkei-Gorzo (2012) destaca alterações no sistema endocanabinoide no contexto de doenças neurodegenerativas. O interesse científico tem-se centrado na forma como fitocanabinoides como o THC e o CBD interagem com sistemas biológicos, incluindo os que estão envolvidos no equilíbrio oxidativo e na inflamação.
O que é o THC (tetra-hidrocanabinol)?
Anandamida
A anandamida, também conhecida como araquidoniletanolamida, é um dos endocanabinoides mais estudados a seguir ao 2-AG. Deriva do ácido araquidónico, um ácido gordo insaturado que se encontra em quantidades significativas no sistema nervoso central.
A anandamida foi identificada pela primeira vez em 1992 por William Anthony Devane, especialista em farmacologia, e Lumír Ondřej Hanuš, especialista em química analítica. O seu nome provém da palavra sânscrita “Ananda”, que significa alegria, deleite ou bem-aventurança, uma referência adequada ao seu papel no organismo.
Interação com o sistema endocanabinoide
A anandamida interage com os recetores CB1 e CB2, à semelhança dos canabinoides de origem vegetal. Em concentrações mais elevadas, pode até inibir os efeitos de compostos como o THC no sistema endocanabinoide. Embora tanto a anandamida como o THC sejam altamente lipossolúveis, as suas estruturas moleculares são bastante diferentes.
Produção e estabilidade
A anandamida é sintetizada nos tecidos e nas membranas celulares. Foram descritas várias vias para a sua produção. A via principal envolve uma enzima fosfodiesterase (NAPE-PLD) que cliva o precursor fosfolipídico de membrana N-araquidonoil-fosfatidiletanolamina (NAPE), ao passo que se considera geralmente menos provável que a combinação direta de ácido araquidónico com etanolamina tenha relevância fisiológica, porque exige concentrações muito elevadas de ambas as substâncias.
Apesar da sua importância, a anandamida tem uma semivida muito curta no organismo porque, depois de ser captada pelas células, é rapidamente degradada, sobretudo pela enzima hidrolase de amidas de ácidos gordos (FAAH).
Outros recetores-alvo
A anandamida não interage apenas com os recetores canabinoides. Liga-se também a outros alvos, incluindo o recetor TRPV1, por vezes designado recetor vaniloide, de acordo com um estudo de Zygmunt et al. (1999).
Este recetor, presente em células nervosas sensoriais em todo o sistema nervoso central e periférico, está associado à deteção de estímulos dolorosos, calor e sabores picantes.
Outros ligandos endógenos do sistema endocanabinoide são:
| Ligando | Nome completo |
|---|---|
| NADA | N-araquidonoildopamina |
| OAE | Virodamina (O-araquidonoil-etanolamina) |
| AGE | Éter de 2-araquidonilglicerilo (éter de noladina) |
| Pregnenolona | Pregnenolona (um esteroide descrito como inibidor específico da sinalização do recetor CB1) |
| LPI | Lisofosfatidilinositol (um agonista endógeno do recetor GPR55) |
Anorexia e caquexia
As doenças graves podem afetar seriamente os padrões alimentares de um doente. A anorexia (uma perda anormal de apetite) e a caquexia (perda involuntária de peso corporal, incluindo massa muscular e gordura) são sintomas inespecíficos frequentemente observados em casos de doenças autoimunes, infeções graves e tumores.

Em algumas situações, pessoas dependentes de substâncias psicoativas também podem apresentar estes sintomas. Quando não são tratadas ao longo do tempo, estas condições podem levar a complicações físicas graves, exigindo por vezes suporte nutricional artificial para a recuperação.
Que canabinoides produzem um efeito psicoativo?
Impacto na massa muscular e carência de nutrientes
A caquexia está associada a reduções acentuadas da massa muscular e a uma diminuição geral da força física. Muitas pessoas que vivem com esta condição podem referir sensação de fadiga, capacidade física diminuída e menor bem-estar geral. Sintomas como náuseas, ansiedade e desânimo são frequentemente observados a par destas alterações físicas.
Com base em observações da investigação científica, as perturbações do equilíbrio energético do organismo têm sido associadas a potenciais carências de nutrientes essenciais, como o cálcio, a vitamina D e o fosfato. Estes desequilíbrios podem contribuir para complicações mais amplas que afetam a saúde óssea e dentária.
A função cognitiva e a resposta imunitária também podem ser afetadas, embora as experiências individuais variem. A investigação em curso sugere que poderão ser possíveis melhorias na saúde imunitária geral após estratégias adequadas de acompanhamento e recuperação.
Papel do sistema endocanabinoide
O sistema endocanabinoide (ECS) é uma área de interesse em estudos científicos relacionados com a fome e o equilíbrio fisiológico. Um recetor conhecido como GPR55 tem despertado atenção pelo seu envolvimento na regulação dos níveis de cálcio intracelular em células e neurónios através de interações com canabinoides.
Os investigadores estão a estudar de que forma este mecanismo se pode relacionar com alterações das necessidades energéticas do organismo durante a doença. A anandamida, um dos endocanabinoides do organismo, tem sido estudada pelas suas interações com os recetores CB1, e alguma investigação tem explorado possíveis associações com a sinalização do apetite.
Alguns estudos sugerem uma potencial ligação entre o sistema endocanabinoide e o metabolismo energético, embora seja necessária mais investigação para esclarecer estes resultados.
O sistema endocanabinoide (ECS)
Perguntas frequentes
O que são o 2-AG e a anandamida?
O 2-araquidonoilglicerol (2-AG) e a anandamida (araquidonoiletanolamida) são endocanabinoides de ocorrência natural no corpo humano. São neurotransmissores de natureza lipídica que se ligam aos recetores canabinoides.
Como são sintetizados o 2-AG e a anandamida no organismo?
O 2-AG é sintetizado principalmente através da clivagem enzimática do diacilglicerol pela lipase de diacilglicerol. A anandamida é produzida sobretudo a partir da N-araquidonoil-fosfatidiletanolamina (NAPE) pela ação de enzimas fosfolipases específicas.
Quais são as principais funções do 2-AG e da anandamida?
O 2-AG e a anandamida contribuem para influenciar um conjunto de funções naturais do organismo, como o humor, o apetite e a memória. Estes compostos atuam como agentes de sinalização no sistema endocanabinoide.
Como interagem o 2-AG e a anandamida com os recetores canabinoides?
Tanto o 2-AG como a anandamida se ligam aos recetores canabinoides, principalmente aos recetores CB1 e CB2. O 2-AG é considerado um agonista total destes recetores, enquanto a anandamida atua como agonista parcial.
Qual é o endocanabinoide mais abundante no cérebro?
O 2-AG é significativamente mais abundante no cérebro do que a anandamida. Um estudo de 1997 em ratos registou níveis cerebrais cerca de 170 vezes superiores aos da anandamida, e revisões posteriores descrevem os níveis cerebrais de anandamida como aproximadamente 10 a 100 vezes inferiores aos do 2-AG.
Como são degradados o 2-AG e a anandamida?
O 2-AG é degradado principalmente pela enzima lipase de monoacilglicerol (MAGL). A anandamida é degradada sobretudo pela hidrolase de amidas de ácidos gordos (FAAH).
O 2-AG e a anandamida têm papéis fisiológicos diferentes?
Sim, o 2-AG tem sido estudado pelo seu envolvimento em processos imunitários e inflamatórios, enquanto a anandamida tem sido investigada em relação ao humor e à regulação emocional. Observou-se que as suas diferentes interações com os recetores canabinoides contribuem para variações na atividade dos recetores.
O 2-AG e a anandamida estão presentes nos alimentos?
Nem o 2-AG nem a anandamida estão normalmente presentes nos alimentos, mas determinadas fontes alimentares contêm compostos que podem influenciar os seus níveis no organismo. Por exemplo, o chocolate contém compostos estruturalmente semelhantes à anandamida.
Como estão a ser descobertos e classificados novos canabinoides?