Rotulagem de CBD no Brasil mostra falhas preocupantes

01/04/2025
Uma pesquisadora segurando um frasco de CBD
Índice
  1. Ambiente regulatório fragmentado gera inconsistências
  2. Áreas principais revelam lacunas preocupantes de informação
  3. Baixa resposta das empresas acende sinal de alerta
  4. Produtos importados apresentam padrões mais fracos de rotulagem
  5. Por que isso importa para o mercado de CBD no Brasil
  6. Limitações atuais reduzem a confiança do público
  7. Perspectiva pessoal

O mais recente estudo sobre rotulagem de produtos com CBD no Brasil representa um marco importante. A pesquisa chama atenção para uma área frequentemente negligenciada: as práticas de rotulagem em produtos à base de canabidiol, especialmente considerando o crescimento acelerado desse mercado no Brasil.

Ambiente regulatório fragmentado gera inconsistências

O estudo, conduzido por uma equipe de pesquisadores liderada por Eduardo Yoshio Nakano e publicado no Journal of Cannabis Research, avaliou a qualidade da rotulagem de produtos com CBD disponíveis no Brasil.

A análise focou em duas categorias regulatórias distintas: a norma N660/2022, que regula produtos importados, e a N327/2019, que trata de produtos notificados nacionalmente com autorização temporária de comercialização.

De acordo com os resultados, dos 105 produtos avaliados, apenas 19 receberam classificação como muito satisfatória em termos de rotulagem. Quase 40 foram avaliados como pouco satisfatórios, revelando falhas que podem gerar riscos ao público e dificultar o trabalho de profissionais de saúde que recomendam esses produtos.

Áreas principais revelam lacunas preocupantes de informação

O modelo de análise da pesquisa classificou a qualidade da rotulagem em quatro áreas fundamentais:

  • Prescrição: Informações essenciais para seleção e recomendação do produto.
  • Boas Práticas de Fabricação (BPF): Padrões para garantir a qualidade do produto antes de sua comercialização.
  • Segurança de uso: Instruções claras e advertências para uso adequado.
  • Testes laboratoriais (CoA): Análises independentes que verificam o conteúdo e a pureza do produto.

Os produtos enquadrados na norma N327 geralmente obtiveram pontuações mais altas nas categorias de prescrição e segurança de uso. Esses produtos apresentavam com mais frequência informações acessíveis e detalhadas, como orientações de uso, possíveis advertências e elementos de rotulagem exigidos pela ANVISA.

Baixa resposta das empresas acende sinal de alerta

Uma observação importante feita pelos pesquisadores foi a falta de retorno das empresas ao serem solicitadas a fornecer informações ausentes. Dos 105 produtos avaliados, apenas 12 fabricantes responderam aos e-mails com pedidos de dados adicionais sobre rotulagem.

Essa resposta limitada sugere um problema generalizado de transparência e responsabilidade regulatória dentro do setor.

Produtos importados apresentam padrões mais fracos de rotulagem

A análise estatística mostrou que os produtos regulados sob a norma N660 tiveram desempenho significativamente inferior em comparação com os produtos N327 nas áreas de rotulagem avaliadas. No quesito segurança de uso, por exemplo, os produtos N660 apresentaram medianas consideravelmente mais baixas, carecendo de informações essenciais que normalmente estariam disponíveis em folhetos ou rótulos.

Por que isso importa para o mercado de CBD no Brasil

O Brasil está registrando um aumento expressivo na procura por produtos com CBD, com centenas de milhares de pessoas adquirindo esses itens de forma local ou via importação a cada ano. No entanto, esse crescimento ocorre em meio a lacunas regulatórias e baixa fiscalização.

A ausência de rotulagem padronizada e transparente pode resultar em uso inadequado, informações incompletas e perda de confiança no mercado.

Situações semelhantes foram identificadas em outros países. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na África do Sul revelaram divergências frequentes entre o conteúdo real dos produtos e o que está descrito nos rótulos. Tais diferenças, se não forem controladas, podem expor os usuários a compostos indesejados ou contaminantes.

Limitações atuais reduzem a confiança do público

Apesar da existência das normas da ANVISA, o estudo concluiu que a legislação brasileira atual carece de exigências rigorosas sobre a divulgação pública de dados relacionados à garantia de qualidade, como os Certificados de Análise (CoA). Sem regras claras e efetivas sobre transparência nos rótulos, o público e os profissionais ficam diante de um mercado com poucas informações verificáveis.

Perspectiva pessoal

Acompanhando as mudanças internacionais na regulação da cannabis, vejo que a situação no Brasil reflete um desafio recorrente — o crescimento do mercado supera a capacidade regulatória.

É positivo que a ANVISA tenha estabelecido normas como a N660 e a N327 para organizar o setor, mas rotulagem não pode ser tratada como mera formalidade. Ela é a principal fonte de orientação para o público e a base de confiança para quem recomenda o produto.

Na minha opinião, a falta de transparência por parte de muitos fabricantes revela uma preocupação insuficiente com a saúde pública. Rótulos claros, acessíveis e consistentes não são apenas uma exigência regulatória — são uma responsabilidade ética e comercial.

Com o aumento da procura por CBD no Brasil, a aplicação rigorosa das normas existentes e a obrigatoriedade na divulgação de testes laboratoriais serão passos importantes para garantir mais segurança e consolidar a credibilidade desse mercado.

Voltar para o blogue

Deixe um comentário

Tenha em atenção que os comentários necessitam de ser aprovados antes de serem publicados.

Robin Roy Krigslund-Hansen

Robin Roy Krigslund-Hansen

Sobre o autor:

Robin Roy Krigslund-Hansen é conhecido pelo seu vasto conhecimento e experiência nos domínios da produção de CBD e de cânhamo. Com uma carreira de mais de uma década na indústria da canábis, dedicou a sua vida a compreender os meandros destas plantas e os seus potenciais benefícios para a saúde humana e o ambiente. Ao longo dos anos, Robin tem trabalhado incansavelmente para promover a legalização total do cânhamo na Europa. O seu fascínio pela versatilidade da planta e pelo seu potencial de produção sustentável levou-o a seguir uma carreira neste domínio.

Saiba mais sobre Robin Roy Krigslund-Hansen

Produtos Relacionados